"Livre com Fiança" por Quézia Lopes
- BLACK QUEER FESTIVAL
- 28 de nov. de 2025
- 2 min de leitura

Cada faixa do álbum visual “Liberdade com Fiança” proporciona um mergulho nas mitologias de um Òrìṣà a partir da abordagem da dor, do racismo e da homofobia como traumas coloniais, e da cura, decolonização e afirmação. O primeiro videoclipe, “Feitiço”, traz as simbologias de Babalú Ayé (Obaluaê, Omulu), divindade capaz de curar e transformar, de aliviar o sofrimento físico e espiritual. A segunda faixa, com o videoclipe “Lenda”, saúda Èṣù, Òrìṣà das encruzilhadas, do movimento e da comunicação. O “Terceiro Capítulo – Missão” é uma ode a Ọ̀ṣọ́ọ̀sì (Oxóssi), Òrìṣà da caça, das matas e da fartura; com imagens que dialogam com referências visuais de “Renaissance”, de Beyonce, e “Pra que me chamas?”, de Xênia França. “Paciência”, quinto visualizer do álbum, se fundamenta nas mitologias e simbolismos de Yemọjá, a Mãe do Mundo, Òrìṣà da fertilidade e maternidade, Rainha das Águas e das desembocaduras. O curso das águas pede tempo e paciência, sabedoria que nossos mais velhos dominam e nos ensinam. Entre as imagens, performances de mais velhos, seja na arte da pesca, seja ao desfrutar do cotidiano da lida e do trabalho na praia, seja na contemplação do mar por quem agora pode desfrutar de descanso ou, ainda, na contemplação dos festejos e ritos a Yemọjá, tudo pede paciência, sabedoria, tempo e caminhada. “Liberdade”, por sua vez, evoca o poder da transformação e força que Ògún viabiliza. Num hibridismo de estéticas, traz também elementos da cultura pop, como a estética e atitude punk; a cultura workaholic, do consumo, do ter para ser; os simbolismos que contrapõem os valores das elites às vivências de grupos sociais marginalizados como sendo, ambos extremos opostos, partes ou alter egos de uma mesma sociedade “esquizofrênica” – nos remetendo, visualmente, a cenas icônicas, como a final de “Clube da Luta”, e imagens-símbolos, como a de “Torto Arado” e a fotografia que originalmente a inspirou. Por fim, “Respeita” celebra a pluralidade e a diversidade de subjetividades, identidades, corporeidades, vivências, origens e pertencimentos, evocando a paz, razão e sabedoria de Òrìṣànlá (Obàtálá, Oxalá), Pai de todos, sem exceções, e que aos seus filhos dá livre-arbítrio para fazer suas próprias escolhas e, por elas, se responsabilizar. Ao seu lado, traz Ọ̀ṣun, que motiva confiança, amor-próprio e irradia beleza. Espelha o passado para vislumbrar presente e futuro, o tempo espiralar – rememorando, aqui, um conceito de Leda Maria Martins.
“Liberdade com Fiança” é sobre o processo de autoconhecimento – metaforizado pela leitura do Tarot dos Òrìṣàs num cosmos afrofuturista – de um jovem negro gay, mas também é sobre toda uma comunidade (ou comunidades), negra e lgbtqiapn+, sobre travessias e jornadas de dor à cura, aceitação, confiança e autoafirmação, que, embora, intrinsecamente individual, é também coletiva – como nos ensina bell hooks em “O amor como prática de liberdade”: “No momento em que escolhemos amar, começamos a progredir contra a dominação, contra a opressão. No momento em que escolhemos amar, caminhamos rumo à liberdade, agimos de forma a nos libertarmos e aos outros. Essa ação é o testemunho do amor como ato de liberdade...” (2021, p. 283).
Texto Curatorial - Cineasta Quézia Lopes
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